Entrevista João Cotter Salvado do Instituto Empreendorismo Social, 14 Junho 2011
realizada por Cristina Coelho, editora de inovação social da autoridade da inovação

 

Há dias em que temos a certeza de que quase todos os problemas do mundo causados pelo Homem podem ser resolvidos pelos homens. Depois não compreendemos como há soluções tão simples que só agora são praticadas, para problemas que existem desde sempre.

Há alguma razão para a persistência da fome, na terra de todas as abundâncias?

O Instituto de Empreendedorismo Social (IES) tem um papel primordial no desenvolvimento do conceito em Portugal, no apoio à implementação de projectos e na identificação de iniciativas que estão a mudar o mundo.

João Cotter Salvado, gestor de Investigação e Capacitação do IES, explica-nos a sua visão do empreendedorismo social.

O Conceito

O empreendedorismo social resolve problemas sociais que o sector público e privado negligenciam, ou não têm capacidade para resolver, através de modelos inovadores e sustentáveis, desafiando as práticas tradicionais que se revelam falíveis. São projectos com uma capacidade transformadora, escaláveis e replicáveis, que facilmente se estendem a outros territórios, ainda que devam ser adaptados aos novos contextos. Daí que o primeiro passo para um empreendedor social seja o benchmarking – a identificação das melhores práticas na resolução de um problema semelhante.

A teorização do conceito nasceu há menos de duas décadas e chegou a Portugal recentemente, onde, assegura João Cotter Salvado, “já existem muitas iniciativas com impacto social. No entanto, denota-se alguma falta de projecção e a necessidade de adopção de boas práticas de gestão e avaliação”.

Os líderes

E são anónimos que vão marcando a diferença. Ultrapassar zonas de conforto é a normalidade para pessoas que lideram projectos de empreendedorismo social.

O gestor de investigação do IES liderou o Projecto ES+ Vila Real, uma metodologia de investigação do IES para a pesquisa e o mapeamento de iniciativas de Empreendedorismo Social com elevado potencial de transformação social que está a ser aplicada em várias regiões do país.

Com esta experiência assegura-nos que, “muitas vezes, são pessoas com um trabalho social notável não reconhecido, pessoas inconformadas com uma visão não tradicional, desvalorizadas por actuar fora do sistema” que lideram a mudança de paradigma. “São pessoas com capacidade para mobilizar pessoas, alavancar parcerias, com capacidade de liderança e determinação.”

 

Os Recursos

“Há sempre a preocupação em incluir o público-alvo na resolução do problema”, explica-nos João Cotter Salvado, reafirmando como é determinante a participação dos beneficiários no desenho dos projectos. Nos casos de referência admiráveis que nos transmite, reflecte-se a importância não só do reconhecimento do problema, mas também do reconhecimento dos recursos do território, na concepção da solução a implementar – os recursos humanos, os materiais e os imateriais. É essencial trabalhar com os beneficiários na definição do problema e da solução, reconhecer os talentos e capacitar as pessoas, valorizar e utilizar os recursos locais ao serviço da população, defende o responsável.

O Sector

O sector social em Portugal é muito dependente do Estado, em “estruturas que não permitem receitas próprias, que são pouco inovadoras”, diz-nos. Vivem provavelmente, no conforto do mal menor. É o caso dos lares e creches, por exemplo. Talvez por isso, explica João, “o fenómeno no intra-empreendedorismo seja tão importante na incubação e desenvolvimento de projectos sociais, e é felizmente uma característica muito portuguesa.” O intra empreendedorismo acontece quando as organizações dão espaço à criação de iniciativas inovadoras internamente, dando resposta a problemas sociais.

A Escolinha de Rugby da Galiza é um exemplo desta abordagem, nasceu e cresceu dentro da Santa Casa da Misericórdia, ligada ao projecto desportivo do ATL da Galiza, quando Maria Gaivão idealizou integrar socialmente crianças e adolescentes fragilizados, através da prática desportiva. Outra iniciativa de referência é a loja de comércio justo do Eco Museu do Barroso, concebida pelo empreendedor David Teixeira, onde pequenos produtores e artesãos locais comercializam os seus produtos e são ainda apoiados e capacitados em áreas de gestão, solucionando problemas como a falta de motivação, de confiança e de iniciativa da população na produção local. Estes são apenas dois casos de sucesso, que estão a ser estudados para replicação no âmbito do programa Escolhas e do Turismo de Portugal.

Qual seria o panorama na ausência destes projectos? Muito mais cinzento. Os empreendedores sociais lutam contra a persistência de problemas e sem a visão destas pessoas e organizações muitas mais pessoas viveriam ainda no isolamento, artesãos não estariam a produzir, recursos locais não estariam a ser aproveitados e partilhados, mais crianças teriam probabilidade de tomar caminhos desviantes. São apenas alguns exemplos na sequência dos projectos mencionados, mas que já reflectem a grande perda de bem-estar social na ausência destas iniciativas. E, como refere João Cotter Salvado, “o bem-estar/mal-estar actua em cadeia, e afecta todos os que o rodeiam”. Um problema tem externalidades negativas, uma solução tem externalidades positivas.

Esta onda de inconformismo face à persistência das não soluções, e a procura de um papel na sociedade, tem despoletado, recentemente, inúmeras iniciativas catalisadoras de soluções sociais. Desde, entidades que promovem projectos através da investigação e formação (ex: IES), outras que acolhem e desenvolvem projectos internamente (ex: Fundação EDP, Fundação Calouste Gulbenkian), incubadoras sociais (ex: Incubadora Social do Porto e Lisboa), plataformas de partilha de conhecimento (ex: Hub Porto) e concursos de ideias e projectos (ex: Ideias de Origem Portuguesa, Entre Gerações). São apenas alguns exemplos que se multiplicam, e actuam a nível nacional e internacional.

A par do empreendedorismo, outras iniciativas sociais actuam, paralelamente, como o voluntariado e a caridade, que, apesar de não terem um papel transformador, de capacitação e sustentabilidade, são soluções imediatas e, na verdade, “são a única solução para problemas tão complexos como catástrofes naturais e alguns segmentos da população com dificuldades profundas. E Uma iniciativa não tem que depender do mercado”.

 

O Impacto

Uma questão muito discutida a nível internacional é a medição e avaliação do impacto, pois não é facilmente medível em valor monetário. E conforme nos refere João Cotter Salvado, “é um dos grandes desafios do sector, pois o impacto é muitas vezes medido informalmente. E apesar de já haver alguns indicadores, não há um entendimento global.”

Pergunto ao gestor de investigação do IES por que motivo ainda que existem tantas ideias e soluções que se revelam acções isoladas, de curto prazo e que apesar de serem replicáveis não são replicadas. E apercebo-me que o sector social tem uma grande dificuldade em estabelecer parcerias horizontais e falta de comunicação, o que dificulta a escalabilidade e replicabilidade. Estes obstáculos associados à dificuldade na medição do impacto, ao envelhecimento e politização do sector justificam muitas realidades.

As pessoas à frente, por favor.

 

 

 

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