A ideia romântica que todos temos é a de alguém, algures, a caminho do trabalho ou no duche, qual lâmpada que se acende como nos desenhos animados, surge-lhe inspiração! Uma ideia inovadora aparece e de tão brilhante que é, não se se descansa enquanto não a transpormos para o papel. Após isto, a ideia e entusiasmo cresce e toca a bater a várias portas apresentar a ideia até arranjar um comprador/investidor para a concretizar.

Também eu às vezes tinha ideias deste modo mas eram tão raras que se estivesse dependente destas inspirações súbitas para trabalhar, estava bem tramado.

 

Durante a minha estadia na Universidade, estive sempre atento a programas internacionais que fossem além do(s) habitual(is) semestre(s) numa universidade estrangeira mas acontecia que não era escolhido, não era elegível para participar ou não tinha oportunidade. Quando me deparo com um programa intensivo de três semanas na Dinamarca pensei logo que seria um caso de “bom demais para ser verdade”. Conceptual Design and Development of Innovative Products na Bang & Olufsen, uma oportunidade de trabalhar numa área que até então nunca tinha prestado muita atenção. Em algumas coisas devo ser igual ao clássico cliché português pois deixei a inscrição para a última hora e fi-la num acto de descarga de consciência.

Por esta altura já devem ter deduzido que este texto é um relato deste programa e do que significou para mim.

Long story short, eu e mais quatro colegas da Universidade do Minho fomos seleccionados e preparamos as malas para um dia inteiro de viagens até a uma pequenina cidade no norte da Dinamarca chamada Struer (desafio-vos a tentar pronunciar o nome correctamente) que é sede dessa multinacional de aparelhos audiovisuais.

 

O programa

Grupos de cinco elementos de sete universidades europeias além de outros cinco elementos da escola secundária local; dez tutores destas universidades e quatro consultores da B&O; aprendizagem baseada em resolução de problemas; equipas multidisciplinares onde não havia nenhum grupo onde se repetissem aptidões e nacionalidades; Design, Tecnologia Humana (interfaces homem-máquina), Engenharias Mecânica, Electrónica, Informática e Gestão Industrial a par com alunos da escola secundária local.

Os grupos eram formados de maneira a que existisse, forçosamente, uma interacção entre pessoas de diferentes culturas, línguas, competências e experiências durante três semanas intensivas de trabalho e actividades sociais. Estas envolviam (obviamente) visitas ao sistema produtivo e lojas da B&O, bowling, barbecue, excursões e jantar em casa de funcionários da B&O.

 

1º dia

Visita ao museu local onde uma ala é completamente dedicada à B&O estando expostos vários produtos desde a formação da empresa no sótão da família de Peter Bang até aos produtos topo de gama de hoje.

A tarde foi dedicada a um workshop onde em apenas algumas horas se simulou todo o processo que iríamos experienciar ao longo das 3 semanas seguintes. Muito resumidamente, os grupos identificaram as competências dos diversos elementos, clarificaram-se todos os objectivos e expectativas da tarefa a enfrentar, quais os critérios de sucesso, os utilizadores finais dos produtos e o enquadramento do trabalho.

Como em qualquer empresa, é necessário conhecer o contexto do mercado e, principalmente, do consumidor. Focando-nos no conhecimento dos elementos do grupo, definiram-se as principais tendências e padrões do mercado que, por sua vez, foram utilizadas para geração de ideias.

Com a equipa dividida a meio, gerou-se um brainstorming e dez ideias. Nesta fase houve um pouco de tudo desde mordomos robóticos, aparelhos portáteis para fermentação de cerveja, óculos interactivos, aqui o céu não era o limite.

Com um total de vinte ideias geradas, fundiram-se várias até restarem apenas três que foram refinadas e redefinidas através de análise SWOT (Weaknesses, Strengths, Opportunities e Threats). Com produtos já esboçados, finalmente foi-nos dado feedback através de input de outros grupos que davam a sua opinião e questionavam muito pertinentemente diversas funcionalidades dos produtos.

Com as opiniões geradas, redefiniram-se as ideias e foi escolhida a ideia vencedora que iria ser apresentada com a ajuda de um mock up a todos os estudantes, professores e funcionários presentes. Curiosamente, a maioria das ideias finais dos grupos estava centrada em aparelhos (óculos principalmente) onde o utilizador poderia utilizar aplicações de augmented reality para aceder a informação acerca do espaço que o rodeia. Nada de disruptivo ou especialmente inovador mas foi curioso de verificar que as ideias dos grupos eram bastante semelhantes entre si apesar de não ter havido contacto para não se “contagiar” ideias uns dos outros.

 

Isto é o processo habitual de geração de ideias para novos produtos que na indústria costuma demorar meses ou anos. No nosso caso demorou apenas uma tarde. O objectivo também não era criar algo definitivo, foi tudo uma “brincadeira” para nos mentalizarmos do que seria exigido nas próximas três semanas de trabalho que se iniciaram na manhã seguinte.

 

2º dia

Sendo que estávamos a criar produtos para a B&O, dedicamos uma manhã a conhecer os três tipos de perfil de cliente desta marca. Isto foi extremamente importante porque o desenvolvimento dos produtos teria que ter sempre em vista a satisfação de um destes clientes tipo. Com estas pessoas em mente, mais uma vez fomos entregues ao processo de brainstorming, desta vez individual, para criarmos um produto.

Divididos aleatoriamente em pequenas equipas, era escolhida a ideia mais interessante e discutimos a forma de melhor apresentar o produto através de um storyboard para um spot publicitário tendo em vista o cliente tipo que nos calhou.

 

3º dia

Neste ponto já se estão a questionar se isto vai ser um relato diário das três semanas haha. Longe disso, estou a detalhar estes primeiros dias porque foram os que definiram o restante trabalho e onde nos foi facultado uma curta experiência do que nos seria pedido dali para a frente.

Recuando novamente ao brainstorming individual do dia anterior, as ideias foram todas expostas nas paredes do nosso espaço de trabalho de forma a familiarizarmo-nos com elas. Ao mesmo tempo houve uma palestra acerca de prototipagem. Ao contrário do que é habitual (penso eu) num qualquer laboratório de inovação, não tínhamos à nossa disposição um chorudo orçamento ou equipamento sofisticado. Quais McGuyvers da inovação, desafiaram-nos a criar os nossos protótipos a partir de um clip e uma pastilha elástica, ou melhor, “lixo”. Em abono da verdade, é melhor retirar as aspas. Sim, lixo, caixotes oriundos dos departamentos de inovação e prototipagem com peças defeituosas de diversos aparelhos, grades, caixas e algum material electrónico para os Eng. Electrónicos se entreterem. Tudo precariamente montado com Lego, cartolinas, cola, fita-cola e muita imaginação e improviso.

A palestra realizada por membros do Innovation Lab (um deles antigo aluno deste programa) sobre prototipagem foi precisamente nessa onda, a filosofia DIY, do it yourself, onde nos mostraram exemplos de áreas tão díspares como transhumanismo, papercraft, pseudocode softwares, impressão 3D (tínhamos um modelo simples de uma impressora 3D à nossa disposição) e tantas outras.

 

Armados com as principais ferramentas que iríamos necessitar, estávamos agora por nossa conta. Foi-nos dada liberdade completa para perseguirmos as ideias que quiséssemos num processo semelhante ao do de tarde do primeiro dia mas sempre com feedback e alguma orientação dos consultores da B&O. Nunca restringiam os nossos “movimentos”, apenas sugeriam novas formas de encarar os nossos produtos e questionavam se as ideias iam de encontro ao tipo de cliente que nos foi alocado.

O processo de aprendizagem também não se esgotou nestes primeiros dias mas não foi tão intensivo. Houve palestras de forma a conhecermos os cursos dos nossos colegas e as competências que tinham e que poderiam beneficiar o processo de criação e também apresentações dos processos de inovação, desenvolvimento de produtos, gestão tecnológica, gestão dos produtos da B&O.

Nem tudo se restringiu à concepção de produtos. Como tínhamos sempre em mente os clientes tipo, o aspecto da promoção do produto foi tido em conta.

As lojas da B&O destacam-se por terem um espaço de lazer onde o cliente tem um atendimento algo diferente sob a forma da total atenção do representante da B&O numa sala de estar totalmente equipada com produtos da marca. Com este conceito em mente, foi-nos pedido para criarmos uma maqueta de uma sala de estar onde o nosso produto estaria em destaque mas em harmonia com outros. Escusado será dizer que na última semana o nosso espaço de trabalho assemelhava-se mais à sala de uma qualquer escola de arquitectura do que propriamente a de um (improvisado) laboratório de desenvolvimento e inovação.

Mas a maqueta não chegava. No último dia, com a presença da imprensa local e de diversos responsáveis da empresa, tínhamos que apresentar e vender o nosso produto a clientes (papéis encarnados por funcionários da B&O) no nosso espaço de trabalho entretanto transformado em sala de estar B&O semelhante à projectada na maqueta.

Os clientes tinham oportunidade de conhecer os produtos e as suas características e nós de os convencer a puxarem da carteira e comprarem os nossos produtos. Aqueles que tinham protótipos funcionais estavam em vantagem para demonstrar exactamente as funcionalidades dos produtos colocando-os à disposição dos clientes.

 

Poder-se-ia dizer que, para a Bang & Olufsen, o principal objectivo do programa será o desenvolvimento de novos produtos, novas ideias e conceitos que poderão ou não integrar e/ou originar novos produtos (no caso do meu grupo deram início ao processo de registo de patente do produto a meio do programa, primeira vez que tal acontece na B&O com ideias de estudantes). Isso é claro, acho que ninguém é ingénuo o suficiente para pensar o contrário mas não se esgota aí. A componente educativa, de formação e convívio é o coração deste programa. Suamos, desesperamos, festejamos e, acima de tudo, partilhamos uma oportunidade de crescimento pessoal com um grupo internacional fenomenal de checos, polacos, holandeses, dinamarqueses, ingleses, portugueses e um espanhol e um romeno à mistura. Hoje não somos meros desconhecidos entre nós mas antes companheiros que partilharam um pequeno tesouro que foram essas três semanas.

 

De momento já estão fechadas as inscrições para a edição de 2011 mas no próximo ano, quem conheça ou quem for estudante de engenharias do quarto ano da Universidade do Minho e que leia este texto, não hesitem em dar a conhecer o programa e a inscreverem-se pois não só é uma oportunidade de enriquecimento profissional mas também pessoal. Para mais informações cliquem aqui.

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